Sindicato Interestadual da Indústria de Materiais e Equipamentos Ferroviários e Rodoviários

Bicicleta elétrica vira alternativa de transporte em São Paulo

1 de outubro de 2018


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Eram 2% dos veículos em ciclovia, há 3 anos; hoje, são 9%. Usuários destacam comodidade, velocidade, segurança e mudança no estilo de vida

Especial

Juliana Diógenes e Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2018 | 02h00

 

SÃO PAULO – “Foi uma mudança de paradigma. Abri mão de conforto, de um estilo de vida. Saí do carro blindado para a bicicleta elétrica.” Há quase um ano, o dentista Rogério Granja, de 45 anos, largou o automóvel na garagem e passou a sair sobre duas rodas na maioria dos deslocamentos, até para ir trabalhar. “Já tive de trocar a bateria, depois que meu carro ficou tantos dias parado na garagem, sem uso.”

As elétricas, que já foram chamadas de “bike de preguiçoso” pelos ciclistas tradicionais, começaram a aparecer mais em São Paulo nos últimos dois anos, tornando as magrelas acessíveis para quem nunca tinha pensado em usá-las como meio de transporte dentro das cidades. Elas têm sido vistas como uma alternativa para quem quer deixar o carro de lado – ainda que pelo menos alguns dias por semana.

“Optei por comodidade. Em dias de calor, não quero chegar suado ao trabalho”, explica Granja. Diariamente, ele percorre pelo menos dez quilômetros: vai de casa, no Campo Belo, na zona sul da capital, até a Vila Nova Conceição, onde trabalha no consultório.

“Hoje, sei todas as lojas que estão em volta da minha casa e do meu consultório. Eu cumprimento os seguranças e os manobristas do prédio. Você se torna uma pessoa mais sociável. Muda a interação com a cidade. Dentro do carro, você fica achando que o mundo lá fora não te pertence.”

Capazes de atingir até 25 km/h – velocidade máxima permitida em ciclofaixas e ciclovias, segundo o Conselho Nacional de Trânsito(Contran) –, as elétricas vêm atraindo um público que tinha dificuldade de usar bicicletas pelos mais diversos motivos, como não querer chegar suado ao local de trabalho ou não conseguir transpor as ladeiras de São Paulo. Ou tinha receio de andar no meio do trânsito. Com a ajuda do motor, é mais fácil largar em um semáforo e pedalar perto dos carros.

Crescimento

Não é à toa que é na ciclovia da Avenida Brigadeiro Faria Lima, a rota paulistana do pedal, onde esse movimento é mais evidente. Levantamento feito pela Aliança Bike observou que as elétricas dobraram de concentração nos últimos três anos. Em 2015, representavam 2% do total de bikes circulando por ali, hoje já são 9%. Mapeamento feito pela empresa Vela junto a cerca de mil usuários também mostrou que a maioria se concentra naquela região, e nas ciclovias da Consolação, da Paulista e da Sumaré.

Perto dali, na Vila Olímpia, mora o engenheiro Aníbal Codina, de 53 anos, que desde março só usa bicicleta elétrica para ir voltar do trabalho, perto do Shopping Santa Cruz. São cinco quilômetros de distância, um trajeto com subidas íngremes.

“Um dia pensei ‘poxa, poderia ir de bicicleta, só que é uma grande subida e vou chegar todo suado’. Pensei: a solução é uma elétrica. Consigo subir pedalando sem transpirar. Só comprei bicicleta porque pego subida para ir trabalhar. Se não fosse subida, estava na bicicleta normal”, afirma ele, que investiu cerca de R$ 13 mil na bicicleta elétrica e nos equipamentos acessórios.

O carro passou a ficar na garagem. “Hoje só uso para deixar minhas filhas na escola. Quando saio à noite, ou vou de bicicleta ou peço transporte por aplicativo.” Mesmo tendo carro, a editora de vídeos Silvia  Ballan, de 45 anos, já levava as filhas para a escola numa bicicleta convencional há anos – e escrevia em um blog sobre a experiência para estimular outros pais.

Em 2012, ela abandonou o carro definitivamente, passando a se locomover para todos os lugares somente de magrelinha. Mas dois anos atrás, quando a filha começou a crescer e passou a pesar na garupa, ela pensou em desistir. Até que conheceu a e-bike.

“Tem hora que cansa pedalar porque São Paulo é uma cidade de muitas ladeiras. A elétrica quebra tudo isso porque ela sobe tranquilamente”, diz Silvia. Ela dia que a e-bike oferece mais segurança do que a bicicleta convencional por alcançar velocidade mais alta à noite, por exemplo. “A elétrica me proporciona o que uma bicicleta convencional não oferece. Me sinto segura em ruas mais escuras. A velocidade é um benefício não somente para as ruas com ladeira, mas para a segurança.”

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 2017 o Brasil importou 2.165 bicicletas elétricas inteiras. Somente até agosto deste ano, o número quintuplicou: o País importou 13.203 e-bikes. A tendência é tão nova que a classificação fiscal do produto  foi criada pela Receita Federal somente ao final de 2016.

Tendência

O analista de operações Alexandre Lago, de 38 anos, tem uma bicicleta elétrica desde dezembro de 2017 e percorre 36 quilômetros diariamente de casa, no Butantã, zona oeste de São Paulo, até o trabalho em Santo Amaro, na zona sul. Até se encontrar neste tipo de transporte, já tentou vários: antes de comprar uma elétrica, ele teve carro e motocicleta.

Como motociclista por quatro anos, sofreu acidente e foi roubado. Desistiu da moto e tentou ir ao trabalho de transporte público. “A volta para casa era desumana, com tanta gente no ônibus.”

Um dia, no bar, Lago viu uma bicicleta elétrica e recebeu boas recomendações do ciclista que passava. Lago então decidiu alugar uma bicicleta elétrica para testar. No primeiro mês de uso, decidiu comprar uma. “A moto não é divertida de andar em São Paulo. É mais seguro andar de bicicleta do que de moto. Como estou segregado do trânsito na ciclovia, estou mais seguro. Já não tenho a tensão”, conta.

Além de ter deixado para trás a tensão de dirigir uma moto na capital paulista, ele também evita o que considera desconfortável: chegar suado no trabalho. “Como no meu trabalho não tem estrutura para tomar banho, me trocar e colocar roupa social, essa é a diferença de uma elétrica para uma convencional. Percorro 18 quilômetros de casa até o serviço já com a roupa de trabalho, o que jamais conseguiria fazer com uma bicicleta comum”, diz.

A paixão de Lago foi tão grande que ele convenceu até a irmã gêmea a deixar o carro na garagem durante a semana e substituir pela bicicleta elétrica. A publicitária Dagmar Lago há seis meses percorre 6 quilômetros de bike até a estação Butantã e, de lá, vai de metrô ao trabalho. No retorno, sobe na magrelinha de novo e volta para casa.

“Falei para ela: não estou falando para você vender um carro. Tenha, mas use no fim de semana ou quando estiver chovendo. Trocando pela bicicleta elétrica, além de preservar o seu carro, você economiza dinheiro e ganha tempo”, diz. “O combustível está muito caro. Na greve dos caminhoneiros, eu passava em postos de gasolina e dava risada daquelas filas enormes. Só vejo prós na bicicleta elétrica. É qualidade de vida, ganho de tempo e grana. Não vejo por que não virar tendência.”

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